domingo, 25 de julho de 2010

Über + Landia : Cidade Superior ( O QUEBRA )

O Quebra

A decada de 50 foi marcada entre outros acontecimentos, pelo boom do cinema na cidade de Uberlandia. Eram quatro prédios de cinema: Cine Éden, Cine Uberlandia,Cine Teatro São Pedro e Paratodos. Eram dois cinemas para cada família de proprietários. Com diferença de trinta minutos entre uma sessão e outra, o garoto levava de bicicleta a mesma lata de filme para ser exibido no outro cinema. Estamos falando de uma Uberlândia com dezesseis mil residências e vinte e um anos de idade. A grande diversão, talvez única, era o cinema. As promoções de domingo levavam as moças a entrarem gratuitamente no cinema obrigando os rapazes a pagar o bilhete, tem média 500 réis. O ritual era o seguinte: As moças entram e deixam lugares vazios próximos a elas, logo em seguida os rapazes também brancos entravam e se sentavam do lado da moça que lhe interessava. Aos negros restava aguardar do outro lado da rua – o footing dos negros era permitido apenas na calçada oposta ao teatro – e depois que entravam, não se misturavam, iam direto para a parte superior do cinema, conhecido como puleiro. Freqüentar cinema fazia parte das paixões da cidade. Desde 1938, os espectadores uberlandenses formavam filas disciplinadas a porta do Cine Éden,aguardando ansiosos,sua vez de adquirirem um ingresso para o paraíso. (...) Ir ao cinema não era apenas portar-se passivamente diante da realidade em movimento, entregando-se ao olhar. Cinema era um privilegiado epaço e momento de entrega à magia do ócio, nesta cidade estritamente programada pelos negócios. Cada casa de cinema era designado pela condição social. Depois do filme, o vai-e-vem na calçada. Homens parados apreciam o desfile das mulheres. O desejo se esgueira, sorrateiro, e desfila, também ele, na cumplicidade de olhares e sorrisos. Desfila nas duas calçadas. Em 1959 planejaram aumentar os ingressos de cinema, impossibilitando grande parte da população a freqüentar as casas. O resultado: um dos atos mais graves de vandalismo da historia de Uberlândia. A fila foi aumentando aritmeticamente, o que preocupou o bilheteiro, a aglomeração em frente ao Cine Uberlândia que comportava e ostentava dois mil lugares, superou qualquer lançamento até então. Estava programado o filme “O meninão”de Jerry Lewis entretanto naquele dia o filme não foi exibido.O estopim para o inicio da depredação foi uma pedra atrevida que estilhaçou a porta de vidro do cinema. A multidão enfurecida apedrejou, arrombou, arrasou tudo. De nada adiantaram os apelos à calma e ao bom senso. Com a fera solta, era impossível interromper o ciclo da violência. Neste fluxo a multidão percorreu a Avenida Afonso Pena, vencendo rapidamente a distancia até o Cine Uberlândia. Empurrões e gritos, confusão e sustos. A sala de espera do Cine Uberlândia – o principal cinema da cidade – foi completamente destruída, a tela de projeção arruinada e as poltronas foram arrancadas. Chegaram seis policiais para deter a multidão e logo foram apedrejados e bateram em retirada. Até a residência do gerente do Cine Paratodos sofreu com a depredação. Cortinas de veludo, poltronas, imagens da arte imobilizada nos fotogramas, tudo foi conduzido ao altar do sacrifício. As manchetes no dia seguinte estampavam os dizeres: Uma Multidão de Vândalos Extravasa Instintos. Segundo o jornal local, a tabela da COFAP rezava o preço de Cr$24,00 como teto maximo da cobrança do bilhete do cinema, em Uberlândia o ingresso chegou a Cr$30,00. No dia seguinte, segunda-feira, sessenta policiais faziam a guarda das principais ruas da cidade, mas não se sabe como, o povo voltou a se aglomerar e se dirigiu aos armazéns do Sr. Messias Pedreiro. A violência da véspera consolidara a unanimidade da multidão, diante do mercado-primeiro, e das casas comerciais, depois. Sacas e sacas de arroz foram arrastadas pelas ruas, os dois armazéns vizinhos, Messias Pedreiro e Francisco Capparelli foram saqueados por crianças, homens e mulheres. O terceiro dia foi o dia do interrogatório, a policia recolhia mercadorias pilhadas e conduzia autores do saque a delegacia para registro do delito e abertura de inquérito policial. Muitas pessoas reivindicaram o direito de ser testemunha e uma pequena multidão se formou frente à delegacia de policia. Maria Helena Falcão de Vasconcellos, autora de Dias de Violência, termina seu ensaio utilizando-se de dois símbolos fortes da cidade de Uberlândia (Über, do alemão: Superior, e do latim: Fértil) a Sibipiruna, arvore frondosa, encontro da rua Goiás com João Pinheiro e o Fórum Aberlardo Penna, ambos locais que assistiram, testemunharam e interferiram em diversas lutas sociais.

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